Novembro 07, 2009

sai de baixo

líria porto

não sou gata
sou pacata unhas curtas
porém quando fico puta
faço a monta

*

Novembro 06, 2009

polpudas
suculentas
corajosas
rosas
cujos pensamentos
ultrapassam
a imaginação
dos homens
(frutas resolutas)
*
líria porto
*

primeiro poema sem variação


pra fazer poema eu não vou mudar o nome dela,
minhas mais lindas quinze alunas;
voz de desmofo, morangos silvestres;
cabelos de dar perdido no namorado e me enroscar.

não obstante ali ter me findado, não provou
seu corpo o sol de caicó:

tem a pele branca das nuvens, algo tão do seridó, doce
que se refaz em meus dedos e desmancha:
em minha língua, rayanne.

Novembro 05, 2009

comichão

líria porto

é uma fissura
fome desejo
de depois do beijo
te deitar no chão
e num só galope
alcançar o céu

*

para o bardo

líria porto

não ao amor impoluto
quero amor puto

*

Novembro 04, 2009

não queiras ser o único
o último
o primeiro
sê aquele de quem eu me lembre
todas as noites
*
líria porto
*

Novembro 03, 2009

movimentos sincopados

líria porto

da primeira vez doeu
na segunda houve incômodo
daí pra frente meu deus
nada a reclamar

*

segunda variação

nina rizzi

as serras, os rios, tungescência e melaço
me fez em rasgos, talhos,
me abriu as costas.

e de andanças tantas
fui eu dar em caicó.

de todos cantos não houve lugar
onde mais gostasse de me deitar:

no duro!

Novembro 02, 2009

fetiche

líria porto

fada safada
adora vara
de condão

*

Outubro 31, 2009

se madame vier tirar satisfação

líria porto

nego - eu nego
falo que nunca entrou
só roçou a mina roxa
entre as duas coxas

*

Outubro 30, 2009

diálogos

arte de Rubens Guilherme Pesenti


do que traz entre as pernas
até joelhos gosto:
osso que me adentra pelos.

mas são nos olhos-boca
que me verga nervura.
(nina rizzi)
*

o reflexo do teu sexo
é relha na minha retina

brilham negras essas madeixas ternas
que tu trazes entre a pernas
(tecatatau)

pra doutor não reclamar ou como se consegue uma puta

nina rizzi

nunca concebi o amor sem envolvimento.
em ato sexual consigo algo mais que profundo.

são perfeitos meus romances
sem choro, ciúme, drama:
findam num gozo.

toda puta tem irmã carola

líria porto

eita vidinha fudida
eita vidinha capenga
sem gosto e sem tempero
ir da missa pra novena
e ter que rezar o terço

(ela come hóstia
eu bebo vinho)

*

Outubro 29, 2009

é comum ouvir

nina rizzi

foi bom pra você?

(mesmo quando pagam
querem mostrar serviço)

não por generosidade minha resposta
não pode ser outra

: sempre é bom, dionisíaco,
assim, sexo pelo sabor de ser
- idas e vindas.

diversidade

líria porto

é preciso muito peito
coragem filha-da-puta
pra vencer o preconceito
pra escolher caminho torto

eu nunca quis ser esposa
dona-de-casa ou madama
quem quiser tire proveito
eu faço a vida é na zona

eu ganho vida
na cama

*

Outubro 28, 2009

é aqui que o pau come
*
líria porto
*

a escritora

líria porto

tudo por um livro
: até abrir as pernas
para o editor

*

Outubro 26, 2009

di cambão

nina rizzi

eu de pé, braços levantados. cabelos assanhados.
um sujeito ali me acochando ainda mais o jeans.
uma coisa assim, corriqueira.

os meus olhos só vêem o mar correndo à esquerda.
um rosto que eu nunca vou ver, que só me interessa a calça em volume.
e o calor não é só a maresia.
é um lábio, uma voz que se cala em minha nuca

- vai pra praia ou pra lagoa?
- a praia que me salva.
- a mim também. mas uma moça assim tão linda ser salva. você podia ser até casada, sabia?

[penso, ai, nunca deve ter ouvido domenico cimarrosa. visto um chirico, lido dostoiévski. tudo bem, eu não vou casar com ele mesmo, né. e o circo tá armado.]

- moças como eu não se casam, moço.
- ótimo, são dessas que nós mais gostamos.

eu desci. ele desceu. as calças. na praia é assim. comigo é assim: o que é bom, é corriqueiro.

Imperador

roberta silva e nina rizzi

cresta o desejo
que a sua boca
à minha boca
empresta.

vigia-me por uma fresta,
me seguindo
sem deixar pistas.

queima-me de leve
a boca bonina
e estire-se em meu sol
até me deixar louca.

adentre o meu desejo em festa.
e, com ares de troiano,
levanta sua destra,
criatura fina do jardim do éden,
toma-me em tirano gesto.

Outubro 25, 2009

motel44@hotmail.com

líria porto

quem quiser entrar
buzine


*

Outubro 24, 2009

afresco

líria porto

antes de ser bispo
descia ele da torre
(vinha na diagonal)
montava em mim - seu cavalo
e me dava cheque
e mate

: agora cheio de empáfia
quer que eu beije seu anel

jamais

*

Outubro 22, 2009

moenda

nina rizzi

sinhô mim põe a muê.
di garapa i melaço
vô num braço, vô cu otro.

mai'm noitinha, é ele
qui mim mói todinha.

Outubro 21, 2009

O Cliente

roberta silva



Uso roupas vitorianas em dia de função. É assim que me sinto. Saias, anáguas, corpetes, finas coleiras negras, um coque meio despenteado. Comprei o quarto há algum tempo, decorei-o com móveis antigos, cama, guarda-roupas e penteadeiras negros e maciços e cetins vermelhos ou rosa-velho, rendas, transparências. Com certeza parou o olhar em mim por conta disto. Grisalho, cabelos crescidos e desgrenhados, mal vestido, bigodes torcidos à Salvador Dali, dedos longos, unhas longas e olhos brilhantes e amarelos mal fixados em pálpebras caídas e úmidas. Pegou-me pelo braço. Madame indicou o quarto com a cigarreira. Ele cheirava a produto químico, não soube identificar naquele dia. A noite estava clara e antes de acender a lâmpada deu uma boa olhada no cômodo. Apertou meu braço e disse com voz de fumante antigo: - Não dê um pio. - Tirou um lenço vermelho da maleta que trazia. Desamarrou minha blusa e deixou-me só de saia e botas. Molhou o polegar e o indicador com saliva e cacheou um pega-rapaz sobre cada orelha minha. Lambeu de novo o polegar e engomou minhas sobrancelhas. Olhou-me por longos minutos. Fiquei paralisada. Não porque não tinha motivos para gritar, mas de pavor. Tinha certeza que ele me enforcaria. A morte entrou com ele naquele quarto, tenho certeza. Com meu pó-de-arroz tirou o brilho de meu colo. Deitou-me no divã. Tirou o paletó, tirou o lenço do pescoço e enrolou-o na palma da mão. Sem me arranhar com as unhas começou a contornar meu rosto com o dedo. Seu cabelo tinha um cheiro suado. Tocou minhas pálpebras e sussurrou: - Que tristeza te enuviou? Respondi: - Como? Com desprezo mandou-me calar. Depois disse: - Sim, sim... Foi de vergonha e sofrimento teu caminho até aqui. - Ignorando minha surpresa continuou a dedilhar-me. Nos meus lábios voltou a perguntar: - Que fruta madura te deu esta cor? Ofegante: - Sim, sim... claro, pêssegos verdes, este rubor é da dureza de sua polpa, não de teu suco. - Tocou todo o meu corpo e seguia perguntando, para ele ou para a de mim que o habitava, sobre como havia me tornado o que sou, ou o que devia ser para ele. Pensei naquele dia que era a primeira vez que vendia meus pensamentos. Se eu vendia meu corpo para não ter que vendê-los, com que direito ele os comprava? Só me tocou com os dedos, à meia-luz, por toda a noite. Pela manhã deixou-me descansar. Eu permaneci naquela posição a noite inteira. Talvez fosse formol aquele cheiro. Talvez fosse legista e quisesse conhecer as mulheres ainda vivas ou poder matá-las pessoalmente antes de tê-las congeladas em sua mesa de exames. Talvez. Tirou o lenço de sua mão quando o sol já refletia no espelho redondo da penteadeira. Voltei a tremer. Mas vestiu o paletó, se recompôs e saiu. Voltou depois de quatro semanas. Trouxe um pacote enorme, embrulhado com papel pardo e corda fina. Apanhou-me pelo braço e seguiu para meu quarto. Tirou novamente minha blusa, foi ao guarda-roupa e pegou a mesma saia para eu vestir e colocou-me de volta ao divã. Abriu o embrulho e mostrou-me um quadro com meu desenho em carvão. Era eu naquela noite do mês anterior, o penteado, os seios nus, as dobras da saia, a mobília, tudo em branco e pó. Embrulhou-o novamente e refez todo o ritual. Tocou-me o corpo com os dedos e seguiu perguntando e respondendo sobre minha vida. Se eu ousei falar, me calou e não insisti. Pouca coisa que ele dizia em meu nome era real. Creio que quase nada. Pela manhã a mesma coisa. No outro mês reapareceu, e no outro, e no outro. Chamavam-no O Pintor. Era em noite de lua que ele vinha, por conta da luz, talvez, por conta do feitiço, talvez. A cada vez o quadro que ele mostrava estava mais completo, primeiro as cores de fundo, depois as mais fluidas, as de relevo, os efeitos de luz. Nunca pintou em minha frente, em meu quarto só me tocava e inventava minha história. Quanto mais perfeita ficava a pintura mais eu acreditava em suas respostas, mais eu achava que eram verdadeiras. Quando a obra ficou pronta, tive certeza. Era eu naquele quadro, era minha alma degolada.

Outubro 20, 2009

(in)direto

líria porto

: vontade de comer goiaba

assim ele me pedia
quando tinha vontade de mim

*

diálogos

nina rizzi

- quis fazer uma surpresa.

- e acabou surpreendido.

- sim. eu tinha a chave da casa dela, entrei e ela estava trepando com outro.

- putz, que foda.

- pois é. seria horrível viver isso de novo. te ver assim.

- não se preocupe, isso não vai acontecer com a gente.

- suas energias sexuais estão canalizadas em mim?

- não. eu não vou te dar as chaves da minha casa.

pão-duro

líria porto

veio de bota chapéu
corrente dourada
cinturão com fivela
babou-se em meu corpo
depois se queixou
: prefiro as outras duas
pelo custo benefício

*

Outubro 19, 2009

tipos

nina rizzi

i- barbeiro de buceta

tudo quanto é tipo me aparece
e nenhum desprezo, todas e todos
um tanto me agradam.

tenho preferências, contudo
que se fazem e desfazem conforme
meu espírito lunar.

hoje, gostava daquele, o que me
despela pelo a pelo na pinça
e em cada pulo de ai
me oferece sorrisos e um
- dói que é bom doer.

Outubro 18, 2009

paladar

líria porto

o pão que o diabo amassou
não gostei - faltou sal e manteiga

vou ao cinema comer pipoca

*

Outubro 17, 2009

hour concour

líria porto

fulano-de-tal era o amante
que toda mulher queria
seu pênis quando falhava
nenhuma falta fazia
tinha nariz de corvo
dedos de polvo
língua de enguia

fulano-de-tal era o máximo
o supra-sumo da raça
a melhor companhia

*

(in)continência

líria porto

nas pegadas do soldado
cheguei ao quartel

de cabo a rabo

*